Diz o prólogo da carta aos Hebreus: “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho” (Hb 1,1-2). Muitos foram os modos de manifestação de Deus ao longo da História, mas nos últimos tempos, isto é, no momento mais pleno do tempo, Deus falou-nos por meio de Jesus de Nazaré. E este “por meio” sinaliza verdadeiramente uma mediação de todo singular, já que atesta que Jesus não foi apenas veículo da Palavra do Pai, mas Ele próprio era a palavra anunciada. Com razão diziam os seus ouvintes: “Nunca ninguém falou assim!”.Aquilo que escreve Walter Benjamin, “o ser espiritual comunica-se numa língua e não através de uma língua. A resposta à questão: «o que é que a língua comunica?», é então: «cada língua comunica-se a si mesma»”, encontra em Jesus uma concretização inaudita.
Por isso é que, por exemplo, em todo o corpus evangélico não se diz nunca que uma palavra ou palavras de Deus foram dirigidas a Jesus, como é tão frequente nos profetas e, depois, nos Actos dos Apóstolos (Act 10, 1 -22). Facto tanto mais desconcertante quanto se sabe que Jesus era o revelador por excelência do Pai. O motivo não pode ser senão a unidade de Jesus com o Pai, lapidarmente descrita pela afirmação de Mt 1 1,27: “Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.
Deste modo, referirmo-nos a Jesus enquanto Palavra de Deus obriga-nos necessariamente a referir o mistério da Encarnação e a extrair as consequências inerentes. O acontecimento total de Jesus Cristo, na sua humaníssima presença, é epifania de Deus. Para usar a nomenclatura proposta por Jean-Pierre Manigne, quando se fala, por exemplo, da poética de Jesus, deve-se, sem dúvida, falar das parábolas e dos ditos de Jesus, mas igualmente considerar a Sua poética somática: poética do corpo real e do corpo simbólico, poética do coração, poética do olhar, poética do gesto. A Filiação divina revelou-se num “pathos” humano concreto, que não deve ficar na sombra.
P. Tolentino MendonçaPágina 1. 17.12.09
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