Baudelaire recorda que, no relato dos Evangelhos, não há lugar para o riso, retomando um dito de São João Crisóstomo acerca de Jesus: «Ele chorou algumas vezes, mas jamais se riu». E Nietzsche parte daí para uma espécie de suspeição generalizada sobre o cristianismo contemporâneo: “o cristianismo surgiria mais credível se os cristãos parecessem satisfeitos”. Encontra-se, de facto, culturalmente difundida a ideia de uma extinta alegria nos textos sagrados, na teologia e no viver dos cristãos, que sublinhariam antes o estreito caminho da exigência e do sacrifício (sorumbáticos!) como prova da Salvação. Bastaria olhar para essa pintura magnífica de Frei Angélico, “A Ronda dos Eleitos”, que representa a eternidade como uma dança, ou ouvir o riso de Deus no “Messias” de Haendel para perceber que tudo é mais complexo. O que não quer dizer que Nietzsche tenha inventado que há práticas cristãs pesarosas.
Já tinham lançado o alerta os monges Rabelais e Erasmo que, pela via da sátira e do riso, tentaram iluminar a alma do seu tempo, acreditando que o cristianismo conspira, desde a sua essência, para a alegria. Hoje há cada vez mais teólogos a revolver a tradição para aprofundar esse motivo. E um dos méritos é, precisamente, reintroduzirem o humor como apelo (e termómetro) da existência cristã.
As leituras narrativas dos Evangelhos mostram-nos como o humor irónico é uma estratégia de relação (e de persuasão) que Jesus usa. Só a ironia, por exemplo, ajuda a esclarecer algumas das suas palavras, que de outro modo arriscam-se a passar ilegíveis. Em Lucas 10, 24-28, que tomado assim é puro “non-sense”, Jesus responde a um homem de leis que lhe pergunta “que hei-de fazer para herdar a vida eterna?” com uma questão sobre o ponto de vista da Lei sobre o assunto. E no final remata: «Faz isso e viverás». O que Jesus está a dizer é que basta outra vez a Lei para se ser salvo? A mesma ironia no «Dai, pois, a César o que é de César…» (Lc 20,25) ou na expressão com que introduz a corrosiva imagem do camelo a passar pelo fundo duma agulha (Lc 19,24). Jesus afirma: «é mais fácil um camelo passar…», esperando que todos reconheçam que tal situação é, se não desesperada, pelo menos desesperante. Nas voltas do humor abre-se espaço para a sabedoria.
José Tolentino Mendonça
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São Pedro: Comemoramos hoje o dia dedicado ao príncipe dos Apóstolos e primeiro Papa da Igreja, São Pedro. Esta festa foi instituída por volta do século IV, antes mesmo de ser definida a data actual da festa do Natal.
Os jovens da Diocese de Lisboa, maiores de 16 anos, foram convidados a participar numa actividade de 24 horas.
São João Baptista era filho de Zacarias e de Santa Isabel. Chamava-se “Baptista” pelo facto de pregar um baptismo de penitência (cf. Lucas 3,3).
